edenis – matando o tempo, a canetadas

Junho 5, 2007

Sem motivo para pití

Arquivado em: Notice Comments — edenis @ 10:44 am

A verdade dói, já dizem por aí há muito tempo. A “ofensa” do presidente venezuelano (que disse que nossos  senadores e deputados são servos de Washington) ao nosso Congresso Nacional não diz nada que já não saibamos. Grande parte dos políticos deste país faz política para si e seus “parceiros”; estrangeiros ou compatriotas, tanto faz: serve-se a quem paga mais. E como dói esta verdade. Se a “gafe” diplomática de Chavez é uma vergonha para o congresso do nosso país, como instituição que deveria zelar por todos os patrimônio que temos, vergonha maior é a nossa, como cidadãos parte desta nação. É desanimador constatar que esta vergonha não é a vergonha por algo que deixamos de fazer: é a vergonha da desonra, da indignação impotente, frente ao abuso daqueles a quem cedemos a nossa vontade para que pudéssemos ter a segurança de viver dignamente, tendo paz e conforto, em sociedade, sabendo fazer parte de um estado soberano e fraternal.

Eu não sou um leitor de Rosseau, por isso talvez esteja falando bobagens. Às vezes acho que o contrato social é maior burrada que o homem foi fazer. Vivia-se com medo antes disso, mas pelo menos você sabia que não podia confiar em ninguém. Sabia e não era obrigado. O contrato social, além de criar a falsa idéia de segurança, fez com que surgisse a necessidade de se reformular a maneira com que se obtinha e se acumulava riquezas (ou na ordem inversa, tanto faz). Com isso aquela natureza destruidora e exploradora que havia no homem teve de se recolher, se esconder atrás da máscara do indivíduo que respeita as leis da sociedade de que faz parte. Na primeira oportunidade que surge, seja por necessidade real de bens materiais ou por simples ganância, esta natureza ressurge, devastadora. No mundo moderno, ela é a verdadeira força motriz do capitalismo, por trás das grandes fortunas e naqueles que servem a estas grandes fortunas; no socialismo, ela fica afastada por um tempo, no início, e depois vai se mostrando, aos poucos, na elite dirigente, se alastra e quando se dá conta o socialismo só existe no pedaço de papel da constituição. Por isso, eu fico admirado com o devaneio dos ativistas de esquerda, que acreditam que podem melhorar o mundo. Todos eles teorizam, vêem a solução para todos os problemas, constroem sistemas ideais. Mas se esquecem da variável que é a causa maior de falhas em qualquer sistema: a natureza do homem. Fico estarrecido com a política, com a economia. Desejo muito uma sociedade ideal. Mas sou cético, muito cético, quanto ao destino do ser humano, enquanto membro de uma sociedade. Mesmo numa sociedade como era a Atenas da Grécia antiga, a condição humana não era a melhor. Vê-se a presença constante da guerra, como se nota nos textos de Aristóteles, de Platão – e aí se vê que nem mesmo aqueles que buscam a excelência do homem se vê livre de problema – e de outros autores do período. E tudo por que o homem não se contenta com o viver somente. É como se algo estivesse sempre faltando.E em nosso Congresso, assim como em todo espaço onde o homem trabalha seus assuntos, esta natureza voraz, ávida por algo que, pelo menos momentaneamente, preencha esta lacuna que há no ser do homem (desculpem a repetição, mas fica mais claro o sentido), se faz presente. Depois de refletir sobre isto, você vai concordar: dói que seja verdade? Dói. Mas o Estado venezuelano sofre das mesmas mazelas, todos os Estados sofrem. Quem dera a Venezuela fosse o Estado ideal e os dizeres do presidente Chavez não fosse só retórica política: eu daria um jeito e viraria venezuelano ainda hoje.Conclusão disto tudo: Se você não está servindo e sendo explorado, você está sendo servido e explorando alguém. Para que alguém tenha conforto e tudo que precisar – ou que acha que precisa – outro sempre tem que passar fome, outro sempre tem que sofrer. Não existe honra e dignidade para nenhum dos lados.

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